sábado, 24 de outubro de 2020


 

A musicalidade Abakuá.

 

 

Roberto Rutigliano (2020)

 

 


 

“No tambor fala Deus”.

“Não há Deus sem Ékue, nem Ékue sem Deus”.

 (provérbios do Abakuá)

Índice temático.

Para abordar este tema vamos a dividir a aproximação em uma introdução e dez tópicos:

1.       O tambor sagrado.

2.       O som.

3.       A simbologia do bode.

4.       A simbologia do leopardo

5.       A simbologia do tambor.

6.       O tambor de fricção.

7.       A instrumentação das cerimônias.

8.       Os cantos.

9.       O legado musical do Abakuá.

10.   Os músicos desta tradição.

Introdução.

Como introdução é preciso descrever um pouco a cultura Abakuá.

A sociedade Abakuá cubana é uma instituição de ajuda mutua, é uma associação mágico esotérica que herda a cultura dos ekpes (egbes) africanos, a sociedade do leopardo, também conhecida como homens leopardos, oriunda de Calabar , território atual de Nigéria na África próximo de Camerún.  Se conhece a seus membros como ñañigos ou calabaríes , eles cantam em língua Efí (embora ela não seja totalmente pura e sim povoada de termos criados em Cuba).

A sociedade é de característica fechada, secreta, formada só por homens e é conhecida pela sua musicalidade, pelos rituais, pela existência dos Íremes ou diabinhos e pelo uso de grafias específicas chamadas Gandos, Anaforuanas e sellos.

Existem rituais públicos conhecidos como “plante”, mas alguns detalhes especialmente os referidos ao Ékue (tambor sagrado) não podem ser revelados justamente porque poderiam ser interpretados como uma profanação ao mistério.

Aqui o registro de um plante

https://youtu.be/2_Df4cSGkzg

Mais informações podem recolher no livro de Jorge Castellanos e Isabel Castellanos “Cultura AfroCubana tomo III”. Universal Miami 1992.

E na teses “La Sociedad Secreta del Leopardo entre África.y América: la búsqueda de una identidad”. Viridiana Tamorri.

1.    O Tambor sagrado.

O Tambor sagrado, o Ékue (Ékwe), é um instrumento de percussão de fricção com uma haste  externa , uma espécie de cuíca grave, ele justamente no Abakuá está reproduzindo o som que no remete ao mito da princesa Zicán.

O som evoca o rugido de um leopardo, é um som grave, ronco que reproduz o som que aparece na boca de um peixe (Tanze) que era o Deus (Abasí) e que foi encontrado pela princesa Zicán no vaso onde ela colhia água na vera do rio.

Na tradicional lenda  se constrói um tambor para reproduzir o som sagrado, o instrumento é coberto por uma pele de bode (mbori) e seu som nos coloca em contato com a revelação dos mistérios (Úyo).

Em Cuba nas cerimônias e rituais o contato com este som desperta nos participes uma experiência reveladora e transcendente. Nas cerimônias de iniciação, se acredita que o contato com o som do Ékue transmite aos principiados a virilidade e a valentia do leopardo. O Ékue permanece oculto no quarto sagrado e os participantes só tem acesso a seu som. (Ilustração de Baikis Ayon).

Evitamos publicar fotos do Ékue e divulgar seu som justamente para respeitar o sentido privado que os abakuás dão ao instrumento e ao seu som.

2.    O Som.

O Abakuá afirma o mito da existência de um Som com poderes de fecundidade e prosperidade, ele (o Abakuá) parte da ideia de que o poder emana de um Som.

O som é também um veiculo entre o mundo visível e invisível e fundamentalmente o som é capaz de alterar estados de consciência ou abrir canais de percepção mais profundos.

Nesta cultura ouvir é o que nos permite o acesso a um estado de conhecimento maior. Esta ideia esta presente em outras culturas: escutar o som continuo ao modo dos mantras na Índia, por exemplo, provoca um estado de consciência diferente. No Candomblé o som de uma célula rítmica determinada repetida ou uma frase do Rum (instrumento solista) convida ao transe mediúnico .

Esta afirmação do som como sinônimo de apertura de sabedoria desenvolve uma máxima na cultura Hausa ao afirmar que “ouvir é conhecer”.

Existem outras culturas africanas onde o contato com determinado tipo de som também alteraria o estado de consciência, na cultura Ivanga, por exemplo, se afirma que escutar os chocalhos que tremem pendurados das cadeiras das dançarinas também produziria efeitos no estado de consciência.

Aqui um vídeo sobre este ritual

https://youtu.be/33qpoAUYbws

Relacionado com isso uma das coisas mais fantásticas do Abakuá é a questão da busca do Som, isto se desdobra na procura pela pele do tambor para que ele soe de forma que consiga reproduzir exatamente o som de Tanze.

Embákara (filho da primeira geração dos abakuás) guardava as peles que Nasakó (o grande sacerdote) escolhia.  A cena reproduz o fato de como para chegar ao som desejado foram experimentadas por ele (por Nasakó): peles de pez, de roedores, pele humana, de leopardo, de cobra, de crocodilo, de veado, de cordeiro até encontrar a pele de bode que era a adequada  para poder reproduzir o som desejado.

Para quem quiser saber mais sobre este tema: Isabela de Arazandi escreveu um artigo “El sonido del espíritu en las sociedades secretas de Africa”  disponível na web.

3.    A Simbologia do bode.

A pele do Bode foi escolhida para cobrir o tambor sagrado. O bode, na tradição, é o animal símbolo de fertilidade e resistência. No Candomblé (no Brasil) o bode é um animal sagrado que se usa em sacrifícios e está associado com Exu (Elegba na Santeria).

Para os gregos o bode esta relacionado com o mito do Dionísio e está presente no mito do nascimento de Zeus: a cabra foi o animal que amamentou Zeus.

Na tradição nórdica ele está associado com a figura de Thor Deus dos raios  “Senhor dos Bodes”. Ele se transportava numa carroça tirada por dois bodes, estes bodes representavam a virilidade e a luta.

Mais referencias em “Thor, o Senhor dos Bodes: Um estudo de simbologia” Leandro Vilar Oliveira.

4.    A simbologia do leopardo.

A  Sociedade Secreta Abakuá representa a transculturação em Cuba da africana Sociedade do Leopardo Ekpe das etnias Efik, Efor e Oru de Calabar, estas etnias compartiam os cultos totêmicos do pez e do leopardo, do bode, do galo , da serpente,  do crocodilo ,  assim como o culto dos antepassados e das forças da natureza.

O leopardo, (Ekpé) é justamente o inspirador do som, do seu rugido surge o Ékue, o instrumento sagrado que reproduz o som do animal. O próprio nome como são reconhecidos os membros do Abakuá “Ñáñigos”, é uma palavra que deriva do vocábulo “ñan-ñan” que significa arrastado o errático, algo que se relaciona com o leopardo por recordar os movimentos do animal.

O xamanismo, por sua vez, vê o leopardo como um guardião que protege espiritualmente os seres humanos das forças ruins ou obscuras do universo.

O leopardo é um totem muito antigo e poderoso. É um símbolo da coragem, do valor e do poder.

5.    A simbologia do Tambor.

O  tambor nos remete a uma evidente ancestralidade. Evoca um primitivismo claro e profundo. Ele é um símbolo da resistência negra na America e uma prova da riqueza das cores da música oferecendo todo um leque de timbres e de sons.

O Tambor está presente na cultura dos Xamãs, a lenda afirma que um xamã molda seu tambor com um galho da Árvore Cósmica, durante um sonho de iniciação.

Nas guerras se usava o tambor para insuflar coragem nos soldados. Nas tradições grega e romana, o tambor está ligado ao deus da guerra Ares e Marte respectivamente.

Entre os lapões (suecos, russos, finlandeses e noruegueses) o tambor também é usado para adivinhação.

Entre os maias-quiché (Guatemala), é a representação simbólica do trovão, do poder da morte e da fertilidade.

Na África está intimamente associado a todos os acontecimentos da vida humana. Ele é a comunicação, o principal e o mais natural, imediato e intuitivo instrumento do cotidiano histórico.

Na China, no Japão e na Coreia existem orquestras de tambores chamadas Taikô , no norte da Argentina as mulheres  “cajeras”cantam versos improvisados se acompanhando de um tambor.

Em Brasil como em Cuba existe uma infinidade de tambores de diversos tamanhos e sonoridades, sempre ligados a contextos sagrados ou festivos.

O maior simbolismo do tambor tal vez seja justamente o que alcança na cultura Abakuá onde é tratado como uma divindade.

6.    O tambor de fricção.


No Brasil o instrumento se chama Puita, Onça ou Roncador. Ele esta presente nos Congados, no Jongo, no Bumba Meu Boi, no Maracatu Rural e no Samba carioca, mas sempre com um comportamento de base ou de efeitos e quase sempre se encontra com a haste colocada na parte interna do instrumento.

No caso da passagem da Puita (grave) para a cuíca (agudo) no Samba carioca,  ela passou de ter um comportamento de marcação, um antecedente do surdo, para um comportamento de improvisação com uma sonoridade mais exasperada.

Ao longo da historia na África o tambor de fricção é usado em cerimônias fúnebres ou em evocações alegóricas e sempre com alguma referencia mítica com o leopardo ou o leão. O instrumento aparece na Espanha com o nome de “Zambomba”, na Itália e em Portugal com o nome de “Sarronca”. 

O tambor em Cuba é utilizado também pela tradição Kinfuiti (da província de Mariel), mas este tambor de fricção que se utiliza é o de haste interna e se usa com uma função de acompanhamento das cerimônias.  Aqui um vídeo da musicalidade Kinfuiti.

https://youtu.be/06re9VGL_CY

No caso do Abakuá o Ékue tem a haste externa, o que facilita a execução continua.

Uma curiosidade referente ao tema : entre os cargos dentro do Abakuá existe o Moní Bonkó foi um rei e artesão que fabricava tambores. Ele tem o cargo de tocar o tambor maior (Bonkó enchemillá)  , algo similar com o cargo de Alagbé no Candomblé do Brasil.

Para se aprofundar mais no instrumento podem consultar a teses de Rafael Bemvindo Figuereido Galante “Da cucópia da cuíca: A diáspora dos tambores africanos de fricção e a formação da musicalidade do atlântico negro séculos XIX e XX”.

7.    A instrumentação.


A orquestração básica da orquestra de Abakuá precisa de sete instrumentistas, envolve um sino marcando uma referencia rítmica , um quarteto de tambores , uma base com som de madeira, efeitos, coro e solista.

Este tipo de desempenho, de tambores de base e um solista,  repete o mesmo comportamento que ocorre em muitas outras tradições africanas como no Candomblé e na Santeria.

Biankomeko é o nome do conjunto de instrumentos usados nos rituais. O comportamento dos tambores é o seguinte: o primeiro instrumento toca a terra, o segundo e o terceiro fazem o contraponto e o quarto (o maior) é o solista. Os nomes são: o tambor maior  bonkó echemiyá  e os menores chamados de enkomos  recebem o nome de: biankomé, obi apá e cuchi yeremá , completam a orquestra o ekón , erikundé e as echerikaguá e checheribó.

O Ekón, o cencerro, (sino de vaca) toca a clave e dialoga com os Íremes, eles respondem fazendo tremer os Enkaniká ( pequenos sinos pendurados) . O Erikunde alimenta a orquestração (são uns chocalhos que convocam os espíritos) .  Checheribó ou Cherikagua são similares aos Caxixis, eles completam a formação musical.

Alem dos tambores e do Ekón , temos o som das baquetas (itones) batendo na madeira da vera do tambor maior com uma frase que realiza uma função similar a conhecida como “palito” dentro do estilo Rumba Guaguancó.

A função do tambor maior, igual que o Rum dentro do Candomblé esta numa total comunicação com os Íremes.

Quem quiser se aprofundar pode consultar o livro do Ramon Torres Ayala “Abakuá la decodificación de um símbolo” (página 52 até 55).

Aqui dois vídeos falando sobre a instrumentação e a musicalidade com depoimentos de Ramos Torres Zayas e de Lino Neira entre outros.

https://youtu.be/F28OfnU67ig

https://youtu.be/HuBTmiCojrA

Aqui uma mostra que desmembra a orquestração

https://youtu.be/fFBtIUDNANI

Aqui a partitura da orquestração.

https://youtu.be/BCeiQQqfsqY

8.    Os ritmos e cantos.

O ritmo Abakuá é um só, pode ser mais rápido e mais lento, se diferenciam com os nomes Efi (mais rápido e incisivo) e Efo (mais lento e suave), também esta mudança de andamento se pode interpretar como mais rápido o Abakuá de Habana e mais lento de Matanzas.

O ritmo é em 6/8  e a Dança acompanha os movimentos dos estilos .

No Abakuá existem os Enkames são narrações que podem ser letras de canções, estas tem características variadas: relata fatos históricos, tem uma função pedagógica, de diversão, uma função ritual, ela narra provérbios de contudo poético entre outras possibilidades.

Basicamente as formas das músicas tem um refrão ou uma melodia curta e um solista (Moruá- yuansa) que cria um contraponto com o tema.

Vamos a analisar alguns exemplos para ver o que ocorre na pratica:

Ouvimos a gravação “Ibiono”.  O tema:  Bacoco Efo, Betongo Efo.

https://youtu.be/LJg1UU_3UAU

Até o minuto 2:20 existe uma voz realizando uma apresentação , esta voz tem já uma musicalidade típica Abakuá.

A partir desse momento começa outro discurso já mais melódico , com o coral cantando um refrão ao mesmo que entram os tambores e o sino.

No minuto 4:42 se formaliza uma melodia mais clara similar ao que entendemos como “canção” ou refrão e resposta . No minuto 6:03 muda de tema e recomeça no clima que propus a partir do minuto 4:42, depois retoma o comportamento refrão , resposta do coro.

Na mixagem do som se escuta bem o sino, o tambor que se comporta como o salidor e o tambor solista. No som real, ao vivo, o grupo de percussão soa de forma um pouco mais caótica e as vozes se misturam.

Segundo exemplo.  Ouvimos a gravação “Ibiono”.  O tema: Oru Afiana.

https://youtu.be/3XdNvS4AxpU

Começa com um discurso e com algumas intervenções do coro, isso até o minuto 2:53.

A partir desse momento entra a percussão e o solista começa outro discurso já mais melódico, o coro no 3:47  canta uma melodia que vamos a encontrar habitualmente no repertorio Abakuá.

No minuto 4:53 o coral já canta uma melodia maior e foge do comportamento de dar apenas respostas. No 5:39 volta a cantar o refrão . Este refrão aumenta a empolgação até partir para outro tema depois do minuto 8:00. Aqui volta a se comportar  como coro e solista até subir a temperatura da interpretação.

Terceiro exemplo.  Ouvimos a gravação “ Les danses TT dieux” : Wemba TT Abakwa

https://youtu.be/GlVbZpBZcI8

Começa (como é habitual) com uma apresentação e depois entra o canto e a percussão, a diferencia das gravações anteriores se escuta menos o sino e mais o tambor solista.

O tipo de melodia é bastante frequente e podemos destacar a beleza melódica da voz do solista. A música sobe de andamento e temperatura até chegar a um êxtase.

Outra observação:  Estas gravações servem para apreciar a beleza da musicalidade, mas elas não conseguem passar o que acontece de forma desarrumada nas cerimônias ao vivo.

Nos exemplos de som ao vivo, é importante destacar que antes da entrada dos Íremes existe um momento de descontração e de improviso.

Outra observação: Os movimentos do Íreme se espanando está associado com o fato do Íreme estar chegando do mundo dos mortos e se limpando o corpo, os dançarinos fazem o mesmo com um lenço vermelho, este gesto aparece também na dança da Rumba Guaguancó.

Aqui uma filmagem muito bonita para televisão onde se pode apreciar a musicalidade Abakuá.

https://youtu.be/Py5KwcwQAtI

9.    O Legado musical do Abakuá.

O legado mais visível do Abakuá é a Clave. A ideia de colocar a clave na música como fator ordenador, como guia, como centro de gravitação e como elemento que dá uma direção rítmica à música é uma contribuição histórica da cultura Abakuá na  musicalidade cubana.

Este principio musical que influenciou a Rumba e ao Son, dois dos estilos mais importantes da ilha é uma contribuição de Ignácio Piñeiro nas primeiras décadas do século XX. Ele também era compositor e poeta de músicas em estilo Yambu e Son habanero.

Os estilos não foram criados por ele , nem a clave é uma herança só do Abakuá, mas com Ignacio Pinñeiro se cristalizou este legado de forma definitiva.

Piñeiro era ñañigo e a semelhança entre a estrutura dos cantos de Abakuá e da Rumba é algo evidente.

Ignacio Piñeiro e Maria Teresa Vera.

Uma das primeiras experiências que trazem a musicalidade do Abakuá na música popular cubana foi em 1920. Uma joia criada para narrar de forma irônica como os brancos queriam tocar e dançar a música de Abakuá.

https://youtu.be/CdbDYpqjTqM

Aqui uma reunião de abakuás em homenagem a Ignacio Piñeiro.

https://youtu.be/o6yaRDz7Pfg

 

10.          Os músicos desta tradição.

Entre os músicos mais conhecidos de esta tradição podemos encontrar a Patato Valdés, Chano Pozo, Cheo Marquetti, Félix Chappotín, Ignacio Piñeiro, Juan de la Cruz Hermida, Mongo Santamaría, Pello El Afrokán, Silvestre Méndez e até o poeta Jesús Orta Ruiz.

Vamos escutar agora alguns exemplos:

Cheo Marquetti & Septeto Cauto - Efi Embemoro

https://youtu.be/sq4d1TmfPO8

Sexteto Habanero - Criolla carabalí

https://youtu.be/cGxXqB3kI5w

 María Teresa Vera y Rafael Zequeira - Los cantares del abacuá

https://youtu.be/E5VupXJl32k

 Chano Pozo – Abasí

https://youtu.be/FfUvzk5RyeA

Arsenio Rodriguez Mambo Abakuá

https://youtu.be/Tyzh7ssoZmQ

Mongo Santamaría and his Afro-Cuban Group – Abacuá Ecu Sagare

https://youtu.be/OOEvBbtb6R8

Cachão protesto Abakuá

https://youtu.be/wSAzbvxz8AY

 Conjunto Roberto Campos – Abacuá

 https://youtu.be/tTFGcmR1fDk

Los Muñequitos de Matanzas cantan Saldiguera y Virulilla – Ritmo Abakuá

https://youtu.be/C9VBX8Iz8Iw

Mongo Santamaría & Justo Betancourt – Ubané (canto abacuá)

https://youtu.be/TeLba2UpGak

 Ricardo Ray & Bobby Cruz – El Abacuá

https://youtu.be/5X0dyE1ajO8 

 Bobby Valentín canta Frankie Hernández – Yo Soy Abacuá

https://youtu.be/H53jKT9eIwc

Los Papakunkun. Rapsodia Abakuá

https://youtu.be/sv9V8NZcyYw

Patato y Totico . Ya Yo E (Canto Abakuá)

https://youtu.be/Vw3kCcW7NK4

Grupo Afro Cuba. Abakuá.

https://youtu.be/bSfntYbI2CQ

Maiores informações na coleção Gladys Palmera, texto de José Reyes Fortún.

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Conclusões:

Mais de 200.000 carabalíes chegaram a Cuba . Eles foram sequestrados  e trazidos como escravos. Este povo tinha conseguido nunca ser invadido , mas foi vencido e trazido a América como prisioneiro de guerra para trabalhar na Havana , em Cuba.

Eles criaram Cabildos e uma associação secreta de auto defesa . Esta ideia simples de se proteger ajudou a preservar a cultura Abakuá.

Hoje temos liturgia, música, dança, instrumentos, mitos e lendas que sobreviveram a todo este tempo.

A cultura carabalí é muito importante e se podemos usufruir desta riqueza é graças ao espírito de fraternidade de um povo que se manteve unido e lutou por preservar sua identidade.

 

 



segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Cumpleaños de Coltrane.

 

John Coltrane.

Este último 23 de septiembre el ángel negro habría hecho  94 años.


En apenas 41 años de vida y prácticamente en sólo 20 años de actividad artística Coltrane consiguió colocar su nombre entre los mayores de la historia de la música, a partir de su aparición en el escenario del jazz todos los saxofonistas del mundo tienen algo del sonido de su saxofón.

Si Charlie Parker era realmente un pájaro y Cannonball Aderley era un maestro, Coltrane representaba un vigor, un sonido y una virilidad nunca antes encontrada en el saxofón.

Este artículo hace un recorte parcial de Coltrane puntualizando su carrera desde el 55 hasta el 65. La propuesta es hacer un viaje musical afirmando a Coltrane como un artista libre y verdadero, dos virtudes que Trotsky señala como fundamentales en su manifiesto por un arte revolucionario.

Su vida.

John Coltrane nació en un lugar simple en Carolina del Norte en 1926, su vida no fue fácil. Su padre murió cuando él era muy chico, a pesar de un comienzo difícil, gracias a la música, consiguió crear su propio destino triunfal.


Desde chico conoció el clarinete y los cultos de las iglesias americanas de donde quizás se inspiró para encontrar ese sonido trascendente que tiene su música.

Después del clarinete y del violín pasó al saxofón alto hasta llegar al saxofón tenor con el que se destacó desde joven , primero en una big band de la marina americana (ver foto) y después en las diferentes formaciones que comenzaron a “abrirle la cabeza” musical.

Inspirado en Charlie Parker y Dizzy Gillespie, Coltrane consigue influenciarse por esta nueva música hasta que en algunos años atrae la atención de Miles Davis que lo invita a tocar en su quinteto, Coltrane tenía 29 años. Este primer encuentro dura dos años, del 55 al 57 .En esa época tocar con ese grupo era como tocar el cielo con las manos. Su inmadurez lo desvió del camino y Miles Davis lo echó del grupo porque Coltrane, envuelto con heroína,  era excesivamente informal, se vestía mal y no cuidaba de su aseo personal.

Thelonius Monk que asistió la escena humillante en la cual Miles lo expulsó, lo llamó para darle contención y ayudarlo. El encuentro con Monk ayudó a Coltrane a conocer mejor armonía y madurar el sonido de su saxofón. De esa época podemos citar la balada “Ruby my Dear“ que grabaron en 1957 en el histórico disco “Thelonius Monk  whit  John Coltrane”. El dúo llegó a tocar en el Carnegie Hall.

https://youtu.be/xq15vQmD5tE

En esta grabación podemos ya encontrar el sonido de saxofón de Coltrane que llevaría su nombre a la historia de los grandes del instrumento.

Vuelve a tocar con Miles y con él graba “Round midnight “, “Milestones” y  el famoso disco “Kind of Blue” entre otros. El grupo era formado en 1958 por Miles Davis – Trompeta, Cannonball Adderley – saxofón alto,  John Coltrane – saxofón tenor, Red Garland-piano, Paul Chambers – contrabajo y Philly Joe Jones- bateria . También hacían parte de las formaciones Jimmy Cobb en la batería y Bill Evans en el piano.


Entiendo  que estos registros de Miles Davis con Coltrane desde 1955 hasta el 61 hacen parte de una de las épocas más importantes del jazz. Esto porque se llegó a un grado de excelencia y de economía en las composiciones, en las bases, en las improvisaciones y en el buen gusto para hacer música que raramente se repetiría a lo largo de la historia.

Aquí podemos escuchar tres discos importantes Round midnight,  Kind of Blue y Milestones.

https://youtu.be/GIgLt7LAZF0

https://youtu.be/kgRcCyey1hM

https://youtu.be/k94zDsJ-JMU

El sonido suave de Miles junto al sonido ardiente de Coltrane y la sofisticación de las ideas que surgían en la improvisación continuaron en 1959 con la orquestaciones de Gil Evans dentro de este estilo que se conoce como “Cool Jazz”. Una concepción que confirmó la tendencia de que el jazz desde el punto de vista armónico se comportaba con una estrategia modal y desde el sonido podia crear espacios explorando un resultado más dócil y más lírico.

Aquí una versión orquestal de “So What”

https://youtu.be/2O6_RySJUoI

Paralelamente a la grabación de “Kind of Blue” Coltrane graba con la misma base del quinteto de Miles: Paul Chambers (contrabajo) , Wynton Kelly (piano) y Jimmy Cobb (bateria) el disco “Gian Steps”que lo coloca en el centro de la atenciones del ambiente del jazz mundial, en ese disco aparecen dos músicas importantes: la bella balada “Naima” y “Gian Steps”, aquí un breve comentario sobre esta composición: Coltrane entendió que los improvisadores se repetían porque las armonías de las músicas presentaban caminos similares; para romper con esta rutina escribe “Gian Steps” y coloca una serie armónica que realmente desafía a todos los solistas de jazz desde aquella época hasta ahora.

Aquí el disco para que escuchen.

https://youtu.be/ik-jRysBda0

Cannoball y Coltrane.

El disco fue grabado en 1959 pero fue relanzado en 1964 cuando ambos eran estrellas del jazz internacional. La reunión de estos dos nombre legendarios junto a la base del quinteto de Miles quedó eternizada en músicas como “Stars Fell on Alabama" y "Wabash".

https://youtu.be/pcqMZZzxVPk

Antes de entrar en detalles sobre su cuarteto quería mencionar el encuentro con Duke Ellington en 1962 que rindió una de las versiones más lindas para el clásico “in a sentimental mood” y para la balada “my little bronw book”.

Destaco que Coltrane era visto apenas como un saxofonista impetuoso y aquí vemos como él , al mismo tiempo que viril en su interpretación, realiza una de las más bellas interpretaciones de músicas que exigen mucha delicadeza del artista.

https://youtu.be/sCQfTNOC5aEhttps://youtu.be/sCQfTNOC5aE

https://youtu.be/_J0ZpJMQjDohttps://youtu.be/_J0ZpJMQjDo

Coltrane quarteto.

El grupo de Miles  que había grabado Kind of Blue (tal vez el disco más famoso de la historia del jazz) se rompió. Bill Evans hizo su trío y Coltrane creó su cuarteto . Este cuarteto fue algo realmente importante para la historia de la música. Coltrane había demostrado que era un gran instrumentista, pero ahora el también demostraría que era un gran compositor y un gran guía de grupo.

Esa capacidad de liderar un grupo no es fácil, la idea era hacer que la unión no fuese una suma apenas de valores individuales sino que el cuarteto sonase como un único músico: Elvin Jones , por ejemplo, era la llama en la batería, Mc Coy Tyner tenía un modo negro de tocar blues que traía la raíz del estilo y Jimmy Garrison era el ancla del cuarteto.


Sus composiciones.

El tipo de composición de Coltrane es simple , pero inspiradora. Músicas como “Blue Trane” y “Equinox” o “Impressions” son obras de apenas una frase paseando por la armonía, ahora cuando estas músicas son tocadas ellas ganan muchísimas posibilidades de interpretación, quizás este sea su mayor mérito.

Comentando más sobre el tipo de composición pareciera que Coltrane buscaba algo simple que pueda servir de motivo para improvisar, no eran temas complicados o arreglos que exigiesen mucho estudio o mucho ensayo. Lo que se buscaba era crear ambientes donde se pudiese llegar a éxtasis artísticos y eso tenía que ver con la relación entre los músicos de la banda y con una vibración colectiva que llevase a ese “climax”.

Escuchemos un poco “Impressions” en vivo para ejemplificar este asunto

https://youtu.be/03juO5oS2gg

Arreglos de base.

Son muy raros los arreglos de las músicas de Coltrane, él usaba básicamente estilos como un médium jazz,  be bop, baladas, ritmos latinos, pero siempre dejaba a los músicos libres, sin muchos arreglos de base, aquí en la música “Mr Day” podemos escuchar un arreglo para el contrabajo que realmente muestra su lado de arquitecto.

https://youtu.be/uiBsQBfrwZU

El lado interprete.

Un gran músico también es capaz de realizar versiones célebres de músicas conocidas, Coltrane hizo eso con músicas  como “Body and Soul” y fundamentalmente “My favorite things”. Esta música había sido el tema de la película la Novicia Rebelde y Coltrane la adapta a su estilo colocándole una ropa completamente diferente de las posibilidades que normalmente se podían escuchar hasta entonces.

Su improvisación en esa música con el saxofón soprano es algo que inspiró a muchos músicos del mundo .

https://youtu.be/UlFNy9iWrpE

El lado africano

Coltrane tuvo varios temas con la esa temática, su relación con la negritud hace que toda esa tradición lo inspire y le sugiera nuevas paisajes sonoras.

 Vamos a escuchar “Dakar”, “Africa” y “Wis One”

https://youtu.be/igQtZBfzez8

https://youtu.be/NI3WwoBOR_s

https://youtu.be/NI3WwoBOR_s

El disco Ballads

Este disco fue hecho cuando Coltrane estaba en otra búsqueda sonora. Todo el disco es de baladas menos el tema “All or Nothing At All” . Considero un disco importante por su belleza y su excelencia.

https://youtu.be/3dKmQGJ7bw4

Love Supreme.

Este tema y este disco marcaron un lugar donde Coltrane quería llegar. El tema de “Love supreme” es muy pequeño, apenas reconocemos una frase musical, un ostinato de contrabajo con un sabor latino y una letra cantada al final como referencia a lo que podríamos llamar de tema.

Todo esto al servicio de un clima que como si fuese una oración o una exaltación de lo sagrado y de lo divino.

Para mí este tema y este disco fue un límite estético con el cual Coltrane condecora su feliz trayectoria musical. La imagen de Coltrane como un volcán saliendo fuego por la boca de su saxofón que está en la iglesia que lleva su nombre de algún modo retratan la fuerza creativa de este disco.

https://youtu.be/ll3CMgiUPuU

El lado terapéutico

Luis Alberto Spinetta dijo alguna vez que “la música buena hace bien”, Borges dijo que “la música purifica” y Coltrane se refiere a la música como una fuente de cura y de felicidad.

En muchos reportajes encontramos este discurso, la música como un vehículo de alegría, de espiritualidad y de trascendencia.

Coltrane estudió mantras indianos, homenajeó a Ravi Shankar colocando el nombre de Ravi a su hijo, se entregó a la espiritualidad y al amor por lo sagrado entendiendo que la música seria un medio para la trascendencia individual y colectiva del mundo.

Final

Coltrane tocó piano, flauta, varios tipos de saxofón, violín, batería, fue compositor, arreglador e intérprete. Fue un hombre espiritual y un creador. Una de sus mayores creaciones fue su cuarteto.

El John Coltrane Quartet fue uno de los proyectos más importantes (como sonido de banda) de la historia del jazz.  Por la producción y por lo que significó pareció que fuese algo que duró 30 años. En realidad duró apenas 5 años , del 61 al 65.

Este cumpleaños de Jonhn Coltrane hay que festejarlo con mucha música, para despedirme les dejo dos temas menos conocidos de su creación: Central Park West y After the Rain.

https://youtu.be/t5Z63UHrjKE

https://youtu.be/Je2tpX6Z-QA

 

Aquí les dejo el flyer de mi nuevo proyescto: “Afro-Coltrane”.


 

 

 

 

 

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Apreciação musical.



Apreciação musical.


Além de ser um instrumentista, compor e produzir; desenvolvo palestras sobre diversos temas ligados com a música, um deles é a apreciação musical.
Em estes casos o propósito é desenvolver a escuta musical, formar ouvintes. Entendo que uma pessoa pode não chegar a ser um músico, mas pode ampliar sua capacidade em contemplar uma música, e isso faz que ela cresça no sentido sensível da vida e da arte.
Isso não é só saudável apenas para o amador, para um músico também estas indicações são proveitosas no sentido que se ele quer desenvolver uma maturidade musical não tem que só treinar, mas também ganhar uma compreensão maior e o ato de escutar música oferece essa perspectiva. Assim como um escritor tem que ler e conhecer bem literatura; um músico é, antes de tudo, um ouvinte atento.

         
                                           
 

Chegou à minhas mãos um texto com reflexões sobre apreciação musical do compositor russo Aaron Copland: “Como ouvir e entender música”. No primeiro capítulo ele descreve três momentos que podem ajudar aos ouvintes.
No momento da escuta ele diferencia o plano sensorial, o plano expressivo e o plano meramente musical.
Ele recorre a uma comparação com o teatro e diz que o plano sensorial é o mais imediato, este plano estaria representado pela luz, os atores, o cenário, etc. Depois teríamos o lado expressivo, que estaria ligado com as sensações que recebemos: ficamos tristes, melancólicos,etc. E o terceiro esta relacionado com a melodia que ele compara com o enredo, com a historia ou o discurso que é narrado na peça.
Copland diz que o ouvinte tem que identificar a melodia e que ao escutar ele tem que se posicionar dentro e fora da música, julgando-la e desfrutando dela ao mesmo tempo.
                                                                       

Esta aproximação proposta por Copland  é pertinente. Erroneamente escutamos que uma pessoa teria que ter ouvido absoluto para melhorar seu conhecimento musical ou, desde um olhar enciclopedista, nos chegam mensagens aconselhando saber mais sobre música identificando períodos musicais, saber, por exemplo, o que é período Barroco, Romântico, etc.
Estas sugestões do Copland são objetivas e temos que considerar-las  por que poucas vezes encontramos ferramentas praticas para aprimorar o ato da escuta. A indicação do simples fato de reconhecer uma melodia pode nos oferecer esse começo de aprimoramento já que é uma chave orientadora valosíssima..
                                                                            

Agora vou propor um exercício prático: vamos ouvir a Fantasia Numero 3 para flauta solo  de Telemann interpretada por Jean-Pierre Rampal e aplicar estes três momentos de analise  que o Copland propõe: plano sensorial, o plano expressivo e o plano meramente musical. Em outras palavras tornar consciente as impressões gerais, as sensações (tristeza, alegria, etc) e o reconhecimento dos temas (das melodias), a ideia de frase.
Agora alem de identificar a melodia vamos a refletir sobre o ritmo e as seções da música: a Fantasia tem uma parte curta e lenta no começo identificada como “Largo” na partitura que parece indicar uma intenção interrogativa, segue uma parte rápida que na partitura aparece com o nome de “Vivace”, este vivace é um movimento rápido semelhante a uma chuva; tudo isso se repete, uma parte lenta e outra viva e chega ao fim.
Depois temos outro assunto, ou tema que na partitura tem o nome de “Allegro”. Esta melodia é completamente diferente, tem um tom mais festivo e o ritmo nos lembra uma tarantella.

Final.

Com a audição deste exemplo e com a orientação de Copland hoje avançamos um pouco no que seria a iniciação de uma audição aprimorada.
Abraços






quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Da série “Historias do Tango”.



Tema de hoje: o tango “Atreve-te” de Luciano Bottini.

O amor não correspondido é uma das grandes fontes de inspiração para os poetas. No tango  este tema orienta grande parte das letras das canções.
A amargura que causa o desamor produz um sofrimento. Este sofrimento é inerente ao tango.  Cátulo Castillo, no tango “La última curda”, diz: “a vida é uma ferida absurda”;  e o poeta Homero Expósito abre o tango “Naranjo en flor” com a frase: “Primeiro há que saber sofrer”...
No caso do tango “Atreve-te”, Luciano Bottini nos traz a cena de um homem que padecendo a indiferença de uma mulher amada se aproxima na intenção de que ela negue seu carinho.

A história.

Meu pai me conta esta história: "a anedota é que, na década de 50, Pepe Basso gravou o tango “Atreve-te”. A letra era de meu vizinho da Rua Lemos, seu nome era Luciano Bottini, no bairro o seu apelido era O Poeta. Ele tinha feito a letra desse tango motivado por uma vizinha nossa chamada Rosita Vieira, mas esta, quem seja, eu o ignoro. Em tempos passados O poeta um dia passou em casa para falar com meu irmão Ñato que estava ausente, eu o atendi e ele me falou: ' você moleque poderia me ajudar a refazer parte do refrão de um tango que estou compondo?'
Minha irmã Brígida o convidou para entrar e na cozinha, li o texto e lhe disse:  - não te aflijas poeta,  Rosita é assim com todos, - mas eu sou apaixonado por ela, ele me respondeu, bom então a encara pela última vez e diz : atreve-te a dizer que não me queres! (em sua inspiração, pensou meu pai: essa mesma frase poderia ser tão oportuna para o encontro derradeiro quanto para o refrão do tango). Luciano foi lá , mas  foi rechaçado novamente por Rosita".
A frase sugerida pelo meu pai “Atreve-te a dizer que não me queres” não foi usada pelo poeta, no seu lugar a frase “Atreve-te a disser que sou farsante” foi à escolhida para inverter ou mascarar a rejeição.
Na historia universal do amor o desencontro entre Luciano e Rosita ficou eternizado numa letra de tango relativamente famosa em uma Buenos Aires de ruas de paralelepípedos e de amores suburbanos, da qual ainda temos lembranças.



Aqui o link do you tube para escutar o tango e depois a letra.
Atrévete.
Cómo puedes decir que soy farsante
Si mi sangre te daría gota a gota,
Ahogarme con los besos de tu boca
O morir entre tus brazos de pasión.

Fogosa juventud que en sentimiento
Va arrastrando mi vida a la locura,
Mi alma siempre falta de ternura
De sufrir por tanto amor el corazón.

Atrévete a decir que soy farsante
Y falso es el sentir que te profeso
Mi vida te la doy en un instante
A cambio de tu amor puesto en un beso.

Coda:
Atrévete! y pídeme la vida
Que te la entrego herida
De tanto amar.

Letra : Luciano Bottini  (Luciano Orlando Bottini)
Música : José Basso  (José Hipólito Basso)



quinta-feira, 29 de novembro de 2018

DEIXA MALHAR


Historias do Samba.

Chegou até minhas mãos um belo livro que narra a historia da Escola de Samba ”Deixa Malhar” e de seu fundador Mano Elói. O livro se chama: “Escola de Samba Deixa Malhar”, seu autor é o historiador Sormani da Silva.
A historia se inicia quando o pesquisador conhece ao compositor Rubem da Vila e este o introduz na existência da Escola de Samba ”Deixa Malhar”, a partir do encontro se abre todo um universo que evidencia, entre outras coisas, como o Samba se torna “música nacional”, como nascem às primeiras Escolas de Samba nos anos 30 como formas de socialização do movimento negro, como líderes destas organizações conviveram com as religiões de origem africana, com experiências sindicais e com a historia das ocupações das favelas cariocas.
 Lendo o livro sabemos como a polícia fecha a “Deixa Malhar” uma década depois de sua criação o que implica um ataque ao movimento musical-social- político-religioso na época do Estado Novo, e como se estabelecem os pólos do Samba no Porto, na Tijuca, na Mangueira e em Madureira.

Os personagens.

Elói Antero Dias o Mano Elói nascido em 1888 no Vale da Paraíba, foi o primeiro cidadão do Samba, uma síntese do homem negro atuante, militante capaz de liderar todo um movimento histórico. Ele tinha a musicalidade ancestral do Candomblé, do Jongo e da Capoeira, era um operário engajado na luta política- social,  ao mesmo tempo sambista; em fim um protagonista central da historia da cultura de Rio de Janeiro.
Aqui duas gravações de 1930 onde podemos apreciar sua musicalidade.

O Nome da Escola.

“Deixa Malhar” evoca dois sentidos: a Malha era um jogo popular na época no qual, basicamente, se disputa a pontaria com ferraduras ou discos de metal apontando para um pino ,  ganha quem o derruba ou quem mais se aproxima do alvo; também o significado aponta para zombar, no caso seria similar a dizer: deixa que falem.

A criação e o fechamento da “Deixa Malhar”.

A Escola de Samba tinha o subtítulo de “Batuques e outras Sociabilidades”, sua sede ficou na Chácara do Vintém (hoje Tijuca) e sua existência durou entre 1934 e 1947 embora seu fechamento oficial ocorresse em 1943.
A criação do espaço em torno dos quais se organizara esta e outras Escolas de Samba foram ambientes de socialização das comunidades negras. Foram também, na realidade, desdobramentos das organizações das religiões africanas que serviram para fortalecer a vida comunitária no sentido da defesa e da consciência de classe.

A música.

Os sambistas eram habitualmente constrangidos e suas casas eram ameaçadas, o Samba era e um lazer, mas também uma arma e uma ferramenta de luta.
A idéia era reunir os amigos a partir da música, as agremiações tinham basicamente os compositores, a bateria formada por instrumentos de percussão (surdos, tamborins, cuícas e pandeiros) e o canto (na época não existia a figura do puxador, as estrofes eram cantadas de forma coletiva e o coro formado pelas pastoras cantava o refrão).

A época musical.

Brasil em 1937, com Getulio Vargas como presidente, fez um movimento de afirmação da identidade brasileira escolhendo o Samba como música nacional, esta escolha deu ao estilo uma visibilidade maior e serviu para sua estratégia de aliar sua figura com as manifestações populares.
O fato do Samba ser escolhido se bem deu legitimidade aos sambistas, não necessariamente fortaleceu as manifestações mais ligadas com sua raiz negra.
Isto normalmente ocorre quando as instituições se apoderam da arte, elas excluem as manifestações das comunidades e moldam os estilos ao gosto da indústria; deste modo a imagem do Brasil ficou atrelada com a imagem da Carmen Miranda, do Zé carioca da Disney e a composições como Aquarela do Brasil de Ary Barroso.
O Samba de Roda e os estilos populares que eram ouvidos na casa da tia Ciata, os Jongos tocados na Serrinha ou no barracão da “Deixa Malhar” não tiveram espaço por que a elite não queria um Brasil identificado com a negritude e sim com os “avanços urbanos”.
Aqui duas gravações que mostram o contraste

Mais discussões musicais.

Um dos capítulos mais interessantes do livro acontece quando toca no tema: ”Cultura negra e identidade nacional”.
Com Getulio Vargas o Samba ganhou legitimidade, esta unificação nacional em torno do Samba recebeu críticas de modernistas como Mario de Andrade que entendiam que esta escolha valorizava apenas uma das variantes musicais do Brasil.
De todos modos a idéia de valorizar um ritmo de origem negra provocaria uma mudança conceptual e a partir desta transformação teríamos a possibilidade de uma mestiçagem cultural, uma síntese antropofágica.
A postura de um homem branco no papel de civilizador do homem do morro, seria substituída pela idéia do homem erudito interpretar ,com muito respeito, o ser nacional do homem popular.
A resistência a considerar o popular como símbolo nacional não enxergava o valor das baianas ou do samba; na contramão o conceito de "síntese" teve acolhida em músicos como Villa Lobos e Radamés Gnatalli que reuniram o melhor do folclore brasileiro ao mundo da música clássica européia para, por meio a este diálogo, criar a identidade nacional.

O movimento.

A época era rica em musicalidade, se ouviam Jongos com Mano Elói , Maxixes com Sinhô e Sambas com  Noel Rosa, Wilson Batista, Lamartine Babo, Ary Barroso e muitos mais.
Aqui gravações ilustrativas.
Jongo
Wilson Batista
O Samba Madalena se zangou
O racismo e o anticomunismo.
As escolas de Samba pelo seu caráter anárquico e independente junto às agremiações ligadas ao partido comunista sofreram perseguições e repressão.
O fechamento da sede da “Deixa Falar” foi um golpe no movimento negro e significou uma estratégia de controle social.

FINAL

Recomendamos este livro para todo o mundo que ama a historia musical brasileira, terminamos nossa resenha com a frase do NASCIMENTO: “O tambor é fonte de ritmo cósmico, exerce a função de harmonizar as coisas: Deuses”.




   




  



domingo, 22 de julho de 2018

Arte popu- clássica.


Arte popu- clássica.

A música na América tem uma mesma raiz, ela é européia, indígena e africana, desta mistura nasce o jazz, o choro, o tango e o son cubano.
No inicio do século XX até 1960 no Brasil e na Argentina compositores como Heitor Villa Lobos, Radamés Gnatalli, Alberto Ginastera e Astor Piazzolla inspirados pelas raízes ancestrais desdobram estes ritmos e melodias com elementos da música clássica criando uma verdadeira revolução que no começo não agradou nem aos cultores da música de concerto, nem aos da música popular.
Anos se passaram para que estes criadores atingissem um espaço, as razões para desconsiderar estas obras tinham argumentos dos dois lados.
Dos puristas populares no Brasil argumentando que incorporar arranjos de cordas ao choro ou ao samba (como ocorreu com Radamês ou Tom Jobim) estaríamos desnaturando o estilo; na Argentina, que se mexêssemos com os ritmos do tango (como aconteceu com Astor Piazzolla e Eduardo Rovira) o tango iria acabar.
Do lado dos puristas do clássico também existia um desconforto por que utilizar um bandoneon como solista de uma orquestra sinfônica parecia uma profanação, ou orquestrar uma melodia de choro seria um no sense.
Hoje em dia, passados os anos, as brigas continuam, mas cresce a possibilidade de aceitar uma convivência entre os novos caminhos que os estilos estão percorrendo.
No caso dos puristas populares o ressentimento vem por que a forma de tocar tradicional aparece com o rotulo de datada e parece que simplesmente se deixa de atualizar por uma questão de moda, do lado dos puristas eruditos por que tem que dividir espaços na salas de concerto com expressões artísticas que para eles não tem valor.

Conclusão.


A arte é dinâmica e suas manifestações sendo verdadeiras sempre serão aceitas como válidas pelos espíritos sensíveis. A máxima que rege a arte é a da qualidade e se ela está presente teremos que apenas entender que se uma arte é verdadeira, por nenhum motivo poderíamos aceitar que seja  coagida sua liberdade.




domingo, 11 de março de 2018

Ayon .


 O Orixá do Tambor.


Existem divindades que representam a magia que vive nos músicos, que tocam
 instrumentos de percussão e no próprio tambor. Nos mitos sagrados mais
 antigos, e no Candomblé encontramos uma historia muito enriquecedora 
e pouco conhecida que narra esta lenda. Trata-se do Orixá do Tambor.
É fascinante observar como no rito o instrumento é considerado sagrado, 
como o som é  considerado um meio de comunicação com força
 transcendentes e como os instrumentistas (Ogan) têm essa missão de 
permitir que o Orixá da música (Ayon) se expresse, sem que isto envolva
 nenhuma vaidade pessoal.
Longe deste comportamento, os músicos hoje perderam a relação com
 o sagrado, com seu próprio instrumento, com seu lugar na arte e se 
importam mais com sua ostentação pessoal que em evocar os Deuses do som.
A narração ancestral mostrada mais a frente, está em perfeita harmonia
 com o que o saxofonista John Coltrane entende por música e evoca em
 composições como LOVE SUPREME.


Ayon o Orixá da música. -1

O tambor é considerado sagrado é tratado como uma criatura vivente, que deve ter cuidados específicos e uma variedade de regras para o seu uso.
A força espiritual contida no tambor, que o consagra, é chamada de ”Ayan” ou ”Ayon", o Orixá do tambor. Para que alguém possa ser iniciado em Ayon e tocar o tambor, deve cumprir rígidos rituais religiosos.
 No Brasil esta tradição praticamente se perdeu, mas foi mantida na Nigéria e Benin (a Terra Yorubá) e em Cuba.
 O iniciado recebe a força espiritual necessária para tocar os tambores de forma correta, para que estes possam "falar" com os Orixás, chamando-os para as cerimônias a eles dedicadas. Ayon representa a expressão sonora das Divindades; ele é a alegoria do tambor que serve como depositário dos poderes Divinos , e como veículo que lhe dá a voz.
A consagração de Ayon no tambor Batá é feita por meio de ritual e elementos litúrgicos sagrados, que ficam dentro do tambor, que é selado hermeticamente com as duas peles. Quando Ayon é assentado no tambor este é chamado de "Eleekoto". O ritual de consagração inclui pintura do tambor com a assinatura de Xango.
Eleekoto é simbolizado por uma miniatura de tambor que não pode ser tocado, pois simboliza "Ayon".
A lenda.
Diz uma lenda da divindade Ayan/Ayon, que Olódùmarè (o Deus Supremo) o chama para aprender o poder de cada Orixá, para ensinar os homens a louvá-los através do canto, da dança e dos ritmos sagrados. Na verdade o próprio instrumento - o tambor - é considerado como a veste material de um espírito e dizem os mitos, que cada tambor possui seu espírito elementar, que se materializa dentro dos mesmos durante as cerimônias para que o rito tenha prosseguimento segundo a forma do pensamento do templo em questão, de acordo com o Orixá regente da casa.

Algumas narrativas sobre Ayon.-2

Aiyon era o mais forte de todos os seres e ninguém o igualava. Certa vez Lorundi lhe disse que Irõko (arvore ancestral - 3) era mais forte do que ele. Sem pensar, Ayon, foi até Irõko e o arrancou com apenas uma mão e o povo disse que Aiyon era mais forte.
Após desmiolar o tronco de Iröko, ele o cobriu com um couro e fez um aketé. E um dia, ao chover, o couro ficou mole e ele pôs   o atabaque em pé ao sol e ficou retumbando, (assim, ele inventou o atabaque).
Ayon começou a tocar para o povo dançar, em muitas cidades onde recebia dinheiro aos seus pés. Um dia, certa mulher quis tocar, mas ele não queria ensinar; em determinado momento ele foi para a mata com ela e quando ele dormiu ela tocou o atabaque.

Ao acordar, Ayon jogou a mulher longe e com isso o atabaque não ficou bom mais. Ao irem a um sacerdote, ele ficou sabendo que a mulher "tava fraca" de Bajé (menstruada), assim ele teve que fazer uma oferenda para o atabaque para que ele ficasse bom novamente. 

Daí o motivo da mulher não tocar atabaque no Candomblé.
De todo modo, sabemos que no culto Ijexá é comum as mulheres tocarem para Logunede por causa de um encantamento. -4
Mais narrativas sobre Ayon.-5

 Ayon é a potestade que encerra alguns dos maiores mistérios da profunda iniciação, pois está ligado a praticamente todo o sistema de equilíbrio das divindades, estando presente no começo e no fim do mundo, atuando na ritualística de todos os Orixás.



É o espírito da Música e segundo os mitos antigos; morava dentro do tambor no princípio dos tempos.

Ayon é a entidade que ensinou os homens a falar, a cantar e a preservar e viver a música como fonte de equilíbrio e estabilidade.

Um tambor bem preparado é um verdadeiro ser vivo, e quase sempre o espírito de Ayon, quando se manifesta nele, induz o Alabê (Ogan- músico) a executar ritmos extremamente hipnóticos e complexos, pois os tambores chegam a “falar” sozinhos.
O preparo de um tambor para Ayon requer muitos cuidados dentro da magia, pois desde a construção até a preparação são utilizados diversos materiais para a consagração, que vão do azeite ao mel, elementos de alguns peixes e resinas de árvores, etc. Um especial cuidado com as tiras que prendem o couro, com elementos diferenciados e polêmicos é indispensável.




Considerações finais.


Os músicos são na realidade instrumentos que permitem que os tambores cantem e atinjam uma transcendência. A beleza desta relação se perdeu, assim como se perdeu o sentido sagrado da música.  Talvez, este mito de Ayon nos permita retomar o elo perdido com a nossa missão.

Notas.


1-Blog Candomblé é para todos.
2-Blog do Babaloorisa Carlos Jose.
3-Iroko é um Orixá muito antigo. Iroko foi à primeira árvore plantada e pela qual todos os restantes Orixás desceram à Terra. Iroko é a própria representação da dimensão Tempo. Iroko é o comandante de todas as árvores sagradas, o vanguardeiro, os demais Osa Iggi devem-lhe obediência porque só ele é Iggi Olórun, a árvore do Senhor do Céu. (fonte- Blog Candomblé o mundo dos Orixás).
4-Segundo o pai de Santo Gustavo Ferreira.
5-Do blog Ilê Axé Casa dos ventos.

VIDEOS.
Aqui um vídeo muito ilustrativo para quem queira escutar a sonoridade dos batas cubanos. 
https://youtu.be/MrJQhgJyMS8